Faltou mencionar a tarandeira (1) para colocar o pão acabado de sair do forno, a lareira com as suas panelas de três pés, claro, os lareiros (2) para pendurar os enchidos para fumar e a chambrileira (3) para pendurar a carne de porco.
Depois de jantar um rancho muito saboroso (rancho do contrabandista), com uma lista de instruções a seguir e devidamente vestida de preto para não ser vista, fui recolher o meu fardo num local secreto onde estava a dona do contrabando - por esta altura já não havia iluminação elétrica e só tínhamos a luz da candeia, e é essa a razão para eu não ter fotografias.
Após algumas recomendações, saí, com os colegas do meu grupo, um guia à frente e outro no final (o Senhor José Calvão e o Senhor João Sousa à minha esquerda e direita, respetivamente, ambos ex-contrabandistas), e lá fomos percorrer o trilho do contrabando, pelo mato, só com a luz da lua (em quarto crescente, mas muito fraca). Sem luz, não tinha como tirar fotografias para vos mostrar, porque não podia utilizar o flash para não ser vista pela Guarda.
Foi um desafio andar em fila indiana, em silêncio, no escuro, durante vários quilómetros onde tínhamos de correr para fugir dos carabineiros e esconder-nos atrás dos arbustos para fugir da Guarda. Aqui e além estavam “vigias” escondidos no mato, com olhos de coruja e cientes do perigo, sistematicamente nos mandavam por caminhos diferentes.
E numa das vezes em que o Guarda passou, fui apanhada, mas convenci-o de que não levava nada;)
Depois de conseguirmos passar pela Guarda Fiscal e Carabineiros aguardavam-nos, à luz da candeia e no local acordado, os patrões galegos e recebemos a jorna correspondente - infelizmente torci um pé pouco antes do final e não conseguir entregar o fardo, mas fica aqui a foto da jorna: uma nota de 100 Pesetas, a antiga moeda de Espanha.
Os contrabandistas regressaram a pé, agora pela estrada, em direção ao posto da Guarda Fiscal, para assistir ao interrogatório aos presos pelo Comandante de Posto: um casal de galegos com o burro, um contrabandista com panelas, um contrabandista com calçado e um emigrante que teimosamente se queria infiltrar no meio dos contrabandistas para ir para terras de França.
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Depois do interrogatório, por volta das 2 da manhã, fomos comer o mata-bicho que os contrabandistas também comiam: sardinha em lata e trigo (pão) de quatro cantos, chocolate e vinho - confesso que a essa hora não comi as sardinhas :)
Aprendi muitas coisas durante o tempo que passei em Vilarelho da Raia, mas uma se destacou: os contrabandistas tinham de ser homens honrados, porque, como não havia nada escrito, a palavra tinha de valer. Quem não cumprisse a palavra, deixava de pertencer à estrutura.
Foi uma recriação surpreendente com muita envolvência dos locais, grande parte ex-contrabandistas, com emoções pelo meio, mas muito divertida.
Dou os parabéns ao Centro Social Cultural e Desportivo de Vilarelho da Raia, à AlmaatPorto (de que sou cliente há anos) e ao Ayuntamiento de Oimbra pela organização!
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